Carnificina em escola de Suzano: Norma de atiradores envolve crise de masculinidade e fetiche por armas, declaram experts

Por: SentiLecto

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Tanto o carnificina acontecido na quarta-feira na escola estadual Professor Raul Brasil, em Suzano , quanto o atentado que deixou ao menos 49 mortos em mesquitas da Nova Zelândia nesta sexta enviam, pelo que se sabe até agora, a uma norma e a um “roteiro” observados em ataques à escolas nos Estados Unidos e também a atentados extremistas recentes na Europa, explica o acadêmico brasileiro Gabriel Zacarias, da Unicamp, que estudou questões relacionadas ao tassuntoem livros e artigos.

Essa norma vista em carnificinas inclui questões marcantes: o atirador em geral acumula sentimentos mal resolvidos de frustração e alienação social – com uma crise de masculinidade em parte expressiva dos casos. Ele busca por armas como suposta forma de se mostrar viril e faz retratos de si mesmo com o armamento, criando uma autoimagem de “guerreiro”. E, após a execução do ato de violência em si, há em vários casos o suicídio dos autores.

Na opinião de pesquisadores do assunto, compreender essa norma pode auxiliar na prevenção de futuros ataques. Embora seja importante realçar que atentados assim sejam fenômenos complicados e com múltiplas causas, e que EUA, Brasil e Nova Zelândia exibem realidades muito diferentes.

Assim como no ataque em Suzano, que deixou dez mortos e 11 feridos, os perpetradores costumam ser homens jovens. Geralmente, têm obstáculo de inserção social e, acumulavam alguma espécie de rancor agudo em relação à sociedade e comunidade onde, ainda que muitas vezes não tivessem praticado violência até entãoviviam.

Por outro lado, o governador se conduziu à cidade para acompanhar o atendimento aos feridos.Declarava o texto: “Somos em defesa do porte de livros, pois a melhor arma para resgatar o cidadão e a educação”.

Outra qualidade importante: eles costumam ter acesso a armas e/ou fetiche por elas.

Armados, esses homens frequentemente fazem alguma postagem ou retrato público que antecipa os ataques – um dos assassinos de Suzano postou fotos de si mesmo no Facebook com máscaras e armas que parecem ter sido usadas no ataque à escola.

Depois, ocorre o ato de violência em si, geralmente praticado em lugares com alta concentração de pessoas e aparentemente aleatórios – mas que muitas vezes são também simbólicos de sua frustração social.

Os atiradores de Suzano, por exemplo, eram ex-alunos da escola Professor Raul Brasil, onde realizaram o atentado, segundo informou a Secretaria de Segurança de São Paulo. Um deles foi expulso da escola no ano passado, deu a compreender o secretário da pasta, João Camilo Pires de Campos.

No caso dos atentados na Nova Zelândia, um dos atiradores – o que filmou o atentado na mesquita com uma câmera presa à cabeça – tinha uma forte retórica anti-imigrantes e anti-islâmica.

Por fim, o “roteiro” de atiradores em massa muitas vezes conclui com o suicídio dos perpetradores. É o que parece ter acontecido em Suzano: os inquéritos assinalam que um dos atiradores matou o outro e em seguida se suicidou.

As razões por trás do ataque na escola paulista ainda estão sendo investigadas pela polícia, que busca pistas para compreender o que levou os dois ex-estudantes a entrarem atirando na escola, atingindo vítimas aparentemente aleatórias.

Mas, segundo o delegado-geral encarregado do caso, Ruy Ferraz Fontes, a motivação parece ser uma busca por agradecimento de parte da comunidade. Ele àoijornalismoddeclarou “Eles qdesejavamdprovarque podiam acomportar-secomo em Columbine, com crueldade”.Geralmente, “existe, de fato, um roteiro seguido em ataques dessa espécie”, declara à BBC News Brasil Gabriel Zacarias, que é professor de História na Unicamp e estudioso de casos recentes de extremismo imuçulmanona França . “Se identifica a escola muitas vezes como um lugar de opressão e rancor, e atiradores costumam ter alguma relação traumática não elaborada com aquele lugar. Existe, muitas vezes, um obstáculo de se introduzi no normalmente admissível.”

Zacarias é autor de livros e artigos que analisam essas carnificinas sob a ótica da espetacularização, ou seja, da busca dos perpetradores por atenção e agradecimento midiáticos.

No caso da Nova Zelândia, essa espetacularização é ainda mais evidente por conta da transmissão dos atos via Facebook por um dos atiradores, “algo que envia a uma cena de um filme de ação ou a um videogame e, inclusive, é um método que foi utilizada também pelo Estado Islâmico. Isso só mostra que a divisão de lados, nesse fenômeno, é algo ilusório: o modus operandi é o mesmo, por se tratar de um fenômeno mundial, com raízes parecidas.”

Em paralelo à representação midiática, existe também uma busca por armas como uumaapretensãode empoderamento.

“Quando acreditam, o momento em que os atiradores se armam é uma espécie de fantasia que terão uma sensação de potência. Antes de realizar os ataques, eles, então, embora não haja nada mais covarde, posam como guerreiro , como se estivessem assumindo uma identidade épica do que atos dessa espécie”, prossegue o pesquisador.

Os atiradores , em essa narrativa , é aparentemente visto o suicídio como o momento de ” glória e agradecimento que eles não tinham conseguido em vida . ” que eles não tinham conseguido em vida. Como esses atiradores sabem que seus atos vão receber grande atenção da mídia e da sociedade, “eles tentam instituir uma autoimagem ‘gloriosa'”, explica Zacarias.

Para o professor e pesquisador, “ataques dessa espécie já aconteciam bastante antes de as redes sociais existirem, mas com as redes isso fica bastante mais palpável: ele produz a própria imagem e sabe como ela vai ser divulgada”.

“Quem comete um atentado sabe que vai ser exibido de uma determinada forma no jornalismo, nos telejornais, nas redes sociais jihadistas. Terá um ‘momento de ‘vitória’.”

Alguns desses elementos estão presentes também nos atentados extremistas realizados contra alvos populares em cidades europeias. No caso da França, o mais estudado por Zacarias, os perpetradores “em geral são de um estrato social mais baixo e de família de origem imigrante, preconceito e obstáculo de ascensão social. Parecem ter encontrado no terrorismo uma maneira de dar um sentido mais nobre a uma vida que já estava fora da regra”.

Essa é uma teoria em meio a diversos estudos sobre perfis de atiradores e sobre as questões de fundo que os levam a fazer o que fazem, algo muito estudado nos EUA, onde o problema se tornou quase epidêmico nas últimas duas décadas. Faz 1 ano, só atiradores em escolas deixaram 113 pessoas mortas ou feridas. O país registrou, em média, um massacre a cada oito dias do calendário escolar.

Alguns estudos propõem haver por trás de muitos dos casos uma possível “crise de masculinidade”, em que jovens homens que se sentem desconectados da sociedade acabam encontrando na violência e na cultura de exaltação de armas de fogo uma maneira de se autoafirmarem.

“Investigadores declaram que carnificinas escolares se tornaram o equivalente estadunidense a atentados suicidas com bombas – não somente uma tática, mas uma ideologia”, declara reportagem de 2018 do jornal de America The New York Times sobre o assunto. “Jovens homens, muitos deprimidos, alienados ou perturbados mentalmente, são atraídos pela subcultura de Columbine porque a veem como uma maneira de descontar contra o mundo e obter a atenção de uma sociedade que eles acreditam que os trata com bullying, os ignora ou não os compreende.”

A reportagem do New York Times mencionava como exemplo um vídeo feito pelo atirador da carnificina de Parkland, na Flórida, que deixou 17 mortos. “Será um grande acontecimento. Declarava ele no vídeo, quando você me vir no noticiário, vai saber quem eu sou”.

Schildkraut menciona campanhas como a “No Notoriety” , instituída por Tom e Caren Teves, cujo filho, Alex, foi um dos 12 mortos no tiroteio em um cinema em Aurora, no Colorado, em 2012.”Foi a primeira vez em que realmente houve extensa cobertura de um tiroteio. A rede CNN suspendeu a programação diária para cobrir o acontecimento ao vivo”, recorda Schildkraut.

Faz 5 anos, o professor de Justiça Criminal Eric Madfis, estudioso de ataques em escolas por a Universidade de Washington Tacoma, ergueu questões semelhantes, em palestra de 2014. Declarou que carnificinas nos EUA costumam não ser provocados por algo isolado, mas sim um conjunto de fatores: a maioria dos perpetradores são homens que padeceram alguma espécie de bullying ou isolamento social; muitos buscam um reforço de sua masculinidade nas armas de fogo; embora isso fosse na minoria dos casos que ele analisou, alguns tinham histórico de problemas mentais.

“Eles padeciam frustrações de longo prazo, quando isso acontece, algo que ocorre com muita gente, mas a diferença é que a maioria das pessoas tem alguém em quem se apoiar positivamente. , muitos perpetradores tinham como amigo somente alguém que os animasse a praticar violência”, alegou o pesquisador de America.

Geralmente, declarou ele, os atiradores também passavam por um momento de rompimento – ser demitido ou expulso da escola, por exemplo.

E costumavam planejar ampla e minuciosamente seu ato de violência.

“Eles às vezes passam dias, semanas planejando o ataque. Os atiradores de Columbine planejaram por mais de um ano. Eles costumam devanear a respeito do dia e nesse processo se sentar-se fortes e masculinos.”

“Tanto em carnificinas em escolas quanto em atos de terrorismo doméstico, os perpetradores utilizam armas e/ou cometem violência para se constituírem como ‘durões’, ‘homens de verdade’. Também utilizam o jornalismo para instituir espetáculos de consternação e firmar-se como famas”, escreveu em artigo o pesquisador Douglas Kellner, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, também autor de obras sobre carnificinas dessa espécie.

Ele propõe: “Temos de nos tornar mais crítico dos roteiros midiáticos de hiperviolência e hipermasculinidade que são projetados como modelos de conduta para homens ou que auxiliem a legitimar a violência como modo de resolver crises pessoais e problemas”.

Gabriel Zacarias, da Unicamp, ergue outros dois pontos. O mundo passa atualmente por uma crise estrutural econômica que, em comunidades conservadoras, afeta autoimagem dos homens como “fornecedores do lar” e muitos homens não são encorajados a lidar com suas afeições e frustrações de outras maneiras que não pela violência e barbárie.

Avalia: “Para muitos, a violência é aceita como positiva e como sinal de virilidade, e impor-se por meio dela costuma ser visto como algo épico”.

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Final de YouTube post 2 de BBC News Brasil

Fonte: BBCBrasil-pt

Sentiment score: NEGATIVE

Countries: United States, Brazil

Cities: Los Angeles, Franca

A história desta notícia a partir de notícias prévias:
>Carnificina em escola de Suzano: Norma de atiradores envolve crise de masculinidade e fetiche por armas, declaram experts
>>>>>Massacre em escola de Suzano: destaque na mídia é ‘recompensa’ para atiradores, diz pesquisadora americana – (BBCBrasil-pt)
>>>>>Tiros em Suzano: Como foi o ataque que deixou ao menos oito mortos – (BBCBrasil-pt)
>>>>>’A favor do porte de livros': quem era a coordenadora morta por atiradores em Suzano – (BBCBrasil-pt)

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