Por: SentiLecto

Foto: Wikipedia – Matheus Nachtergaele

O cenário é a calçada em frente ao Shopping Leblon, na tarde do último sábado. Em meio aos muitos pedestres que vêm e vão, Igor Martins Pinheiro, de 22 anos, agacha-se ao lado de uma bicicleta elétrica, como mostram câmeras de segurança instaladas na rua. Em menos de dois minutos, o rapaz rompe a corrente do cadeado com um alicate, à luz do dia, e deixa o local empurrando o equipamento, sem chamar atenção ou ser aborrecido. Cerca de meia hora depois, no mesmo local, Tomás Oliveira e Mariana Spinelli, dona do item furtado, interpelaram Matheus Ribeiro, que estava sobre uma bicicleta elétrica similar, relatando o crime recém-ocorrido. A abordagem do casal, filmada pelo instrutor de surfe, gerou intensas discussões e virou caso de polícia. Igor, preso na manhã desta quinta-feira por agentes da 14ª DP , é branco e loiro. Matheus é negro e utiliza cabelo no estilo black power. Experts escutado pelo EXTRA enxergam no acontecido um exemplo do chamado “racismo estrutural”.

Em testemunho, o instrutor de surfe contou que o casal tentou abrir o cadeado dele e, como a chave não entrou, pediu desculpas. Na delegacia, Mariana e Tomás negaram ter abordado o jovem em razão da cor de sua pele, mas pelo fato de as bicicletas e dos cadeados serem idênticos. A moça declarou relatou estar desesperada por ter adquirido a bicicleta elétrica em 12 vezes e ainda não ter pago nem a primeira prestação.

Matheus Nachtergaele Omc é um ator, diretor e autor brasileiro.

Para o antropólogo Roberto DaMatta, professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, o episódio envia ao passado escravocrata do país, que ainda deixa marcas na sociedade de Brasil. Na avaliação de DaMatta, não é preciso que o acontecido seja tipificado pela polícia como racismo para que configure, ainda assim, um exemplo de “preconceito estrutural”.

— Como você achará que aquele negro pode ser proprietário de uma bicicleta elétrica tão cara? Ao mesmo tempo, se alguém se aproximasse do rapaz branco no momento do roubo, talvez avaliasse que ele estava com algum problema e oferecesse assistência. Não são coincidências. Temos um passado de escravidão bastante forte, um histórico que sempre colocou negros em posições inferiores. E é um passado que nos persegue e vem à tona em situações como essa — analisa DaMatta. : — O racismo está tão entranhado que, nesse caso, não precisou nem aparecer como crime, a ser necessariamente tipificado em delegacia como tal. Mas ele está ali, presente no nosso cotidiano.

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A também antropóloga Vera Rodrigues tem visão semelhante. Professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira e seminarista no Centro de Estudos Afro-Latino-Americanos da Universidade de Harvard, Vera alega que “é preciso reconhecer que o Brasil é um país racista”:

— Casos como esse são um tapa na cara de quem está disposto a ver, porque exemplificam o «racismo à bde Brasil, em que pessoas brancas partem de um lugar social no qual acreditam ter uma pseudoautoridade sobre negros. Me parece muito improvável que tudo ocorresse exatamente igual, com o mesmo tom de abordagem, se o rapaz também fosse branco — declara a professora.— E tem mais: o que ocorreria se a polícia tivesse sido chamada de imediato? Ou se outros populares tivessem decidido fazer justiça? Não dá pra dissociar esse episódio do fato de que a cada 23 minutos um jovem negro como ele é assassinado no Brasil.

— Minha intenção com essa acusação não é ter um ganho pessoal, direcionado aos dois. É uma questão de racismo na sociedade inteira. Minha intenção é fazer com que as pessoas compreendam que acusar um negro sem que ele tenha feito nada é grave precisa ser levado a sério — declarou, em entrevista ao GLOBO.Após a repercussão do caso, companhias demitiram o casal acusado de racismo. Após cobrança de usuários nas redes sociais, a Papel Craft comunicou que desligou o funcionário, designer da marca, de seus quadros. Se confirmou a informação a o GLOBO em esta terça-feira pela administradora de a loja de a marca em a Gávea. Até o momento, no entanto, a companhia não se posicionou oficialmente.

Conhecido como ‘Lorão’

Os de Polinesia Francesa chegaram até Igor a partir da análise nas imagens de câmeras. Minutos depois do roubo, o circuito interno do edifício onde ele mora, em Botafogo, registrou a chegada do rapaz com a bicicleta de Mariana. No apartamento em que o rapaz vive com a mãe e o irmão, foram localizados a bermuda que ele utilizava no momento do crime e ferramentas como o alicate utilizado para romper os cadeados.

O vídeo mostra o rapaz disfarçando na esquina, arrombando o cadeado, subindo na bicicleta e saindo pedalando depressa. Em seu Relatório de Vida Pregressa , Igor tem 28 anotações criminais, 14 delas por roubo a bicicletas.

Compreenda o caso: Jovem negro delata casal branco por racismo, no Leblon, após precisar confirmar ser o proprietário de bicicleta elétrica

Conhecido como “Lorão”, Igor tem 28 passagens na polícia, metade delas por roubos de bicicletas. Ele já foi preso pelo menos sete vezes por ações semelhantes à de sábado — em 2018, por exemplo, oa polícia aassinalouo rapaz como responsável por mais de dez froubosde bicicleta em a Zona Sul em um pfasede dois meses.— Eu recebi essa notícia há pouco e estou bastante aliviado por eles terem achado o verdadeiro culpado. Espero que o casal resolva o problema e que eles vejam que o perigo não vem só do negro. Como vocês viram, foi um branco que cometeu o crime — desabafou Matheus pouco após a prisão.

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— Diante da narrativa tanto do Matheus quanto das pessoas que estão sendo investigadas, indicou-se a existência de nenhuma injúria expressa verbal de personalidade racial em nenhum momento . Essa citação não foi nos trazida por parte do Matheus ou do casal. Então, por isso, a gente investiga esse caso como difamação e não insulto racial — explicou a delegada Natacha Alves de Oliveira, titular da 14ª DP.

Fonte: Extraoglobo-pt

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A história desta notícia a partir de notícias prévias:
>’Como achar que um negro é proprietário de uma bicicleta tão caro?’, reflete antropólogo ao criticar ‘racismo estrutural’ em caso no Leblon
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Entidades mais mencionadas e sua valorização na notícia:

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