Em ‘Paterson’, Adam Driver vive motorista de ônibus que escreve nas horas vagas

Por: SentiLecto

O cinema de Jim Jarmusch está repleto de referências a poesias e poetas. Em “Daunbailó” , um de seus mais festejados títulos, por exemplo, os personagens debatem a obra de Robert Frost. “Homem morto” conta a história de um homem chamado William Blake. Já “Os limites do controle” inicia com menções a versos de Rimbaud. Com “Paterson”, que chega esta quinta aos cinemas de Brasil, o realizador de America escancara sua paixão pela maneira mais lírica e filosófica das manifestações literárias — o personagem título é um motorista de ônibus que escreve poesias nas horas vagas.

Ao longo de sua carreira, Jim Jarmusch tem sido notável pelo estilo idiossincrático de seus filmes, que são quase sempre produções independentes, com verba limitada.

William Carlos Williams também conhecido como WCW foi um poeta estadunidense associado aos movimentos do modernismo e do imagismo, além de médico pediatra.

— Acho que gosto de poetas porque jamais conheci um que escrevesse por dinheiro. Charles Bukowski era funcionário dos correios. Wallace Stevens trabalhava em uma empresa de seguros. William Carlos Williams era pediatra em tempo integral. Então, eles escreviam por prazer, porque amavam a maneira — explicou Jarmusch, 64 anos, durante o Festival de Cannes do ano passado, onde “Paterson” fez sua estreia global. — Desde a minha adolescência, compreendi que os poetas são figuras meio rebeldes, inovadoras e bastante sensíveis, e nesse sentido são como estrelas de rock.

O passatempo patagão vivido por Adam Driver, o Kylo Ren de “Star wars — O despertar do Força”, não é única ligação do filme com a poesia. Ambienta-se a trama em Paterson, em o estado jerosolimitano, cidade de passado operário que serviu de lar para escritores como Allen Ginsberg e e inspirou a poesia homônimo monumental de William Carlos Williams, sobre o cotidiano e a gente de o lugar. O verdadeiro autor dos versos escritos pelo personagem é Ron Padgett, da escola de Nova York, e um dos preferidos de Jarmusch.

– “Paterson” concorreu na Palma de Ouro em Cannes 2016 com uma nota densa de sutileza e literal poesia – já que é esse o assunto que impregna tudo em torno de Paterson, o protagonista interpretado com calor intimista por Adam Driver. “Paterson” é novo filme do norte-americano Jim Jarmusch.Motorista de ônibus que compartilha o nome da cidade em que nasceu e onde vive, em Nova Jersey, Paterson é um de Finlandia observador do mundo à sua volta – só que, ao contrário dos anjos de Wim Wenders em “Asas do Desejo”, não é invisível . Ele escreve poesias num caderno, em que anota pensamentos e especula em torno das mínimas coisas de seu cotidiano. Uma simples caixa de fósforos, por exemplo. Seu mundo parece estreito: as ruas da pequena Paterson, uma casinha modesta e rosada, que compartilha com a mulher Laura e um cachorro, Marvin . Governa-se o filme com rigor, retratando um cotidiano que se repete, aparentemente sem mudanças. Todo dia Paterson faz tudo igual, Laura nem tanto – mas as variações dela guardam uma certa afinidade interna, já que ela é obcecada por atividades artísticas e culinárias em torno de normas em preto-e-branco. Por conta dessas atividades de Laura, cada chegada de Paterson em casa é recebida com uma surpresa – nunca se sabe o que essa mulher inventou hoje e essa é a forma como ela enfrenta a rotina e as limitações que não são mencionadas explicitamente, mas estão ali: Laura é estrangeira e certamente não tem maiores facilidades para se empregar, ainda mais neste ambiente interiorano. A repetição dos mesmos rituais cotidianos permite pouco a pouco enxergar as brechas onde se insinua a grandeza da vida, por mais simples que pareça. A própria história da cidade de Paterson, afinal, não é tão insignificante, já que ali nasceram ou viveram poetas e atores, como William Carlos Williams, Allen Ginsberg e Lou Costello , entre muitos outros. Um mural no bar, frequentado por Paterson toda noite, guarda as pegadas dessas célebres passagens pela cidade. Habilmente, Jarmusch provoca nossas expectativas viciadas como espectadores. Cria pistas que levam a temer grandes calamidades e violência. Propõe aventuras passadas, como ao mostrar o retrato do protagonista numa farda militar, na cabeceira, mas não vai além. E aí, também, nos recorda de que tantos outros percursos se sucedem diariamente, ao largo dessa espetaculosidade enganosa que o próprio cinema, geralmente, anima. E aí está o grande prazer de descobrir este filme sutilmente grandioso, apoiado na beleza das poesias do autor Ron Padgett. * As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

— O filme tem uma espécie de estrutura poética. A técnica dos sete dias da semana é uma estratégia bastante simples de distribuir a ação e o pensamento, como seções que formam uma poesia — defendeu o diretor, que também assina o roteiro. — Gosto da variação e da repetição em poesia, em música, em filmes, nas artes, geralmente. Finalmente, adoro coisas repetidas, variações sobre um mesmo assunto, seja na música de Bach ou nas obras de Andy Warhol. Em “Paterson”, a minha intenção era construir essa pequena estrutura poética como uma metáfora para uma vida simples e, aparentemente, banal. Cada dia do personagem é uma variação do anterior, ou do dia seguinte.

Fonte: Extraoglobo-pt

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A história desta notícia a partir de notícias prévias:
>Em ‘Paterson’, Adam Driver vive motorista de ônibus que escreve nas horas vagas
>>>>>ESTREIA–“Paterson”, de Jim Jarmusch, equilibra humor e poesia – April 19, 2017 (Extraoglobo-pt)

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