‘Desmaiei em aborto clandestino aos 17 anos e meu namorado desapareceu’

Por: SentiLecto

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“A dor maior é a sentimental. É você se sentir sozinha.” É assim que Maria*, de 24 anos, descreve como se sentiu ao fazer um , sozinha, num quarto barato de hotel em São Paulo, aos 17 anos.

“Eu estava num relacionamento bastante abusivo. Eu não percebia isso na época. Eu descobri que estava grávida, quando ele concluiu. Então eu fui atrás de conseguir o remédio e tomar minhas resoluções”, contou em entrevista à BBC Brasil.

Com medo da reação da mãe e das amigas, ela decidiu fazer o procedimento em segredo. Pegou instruções sobre como tomar o medicamento com uma enfermeira que conhecia.

“Eu fiz num hotel de péssima característica, quando eu fiz. Porque é tudo escondido, ninguém podia saber.”

O ex-namorado de Maria era o único presente no quarto de hotel, quando ela tomou os remédios. Mas, a jovem iniciou se sentir bastante mal e desmaiou. Em vez de levá-la aoclínical, o rapazsumiuu por medo de ser incriminado.

Pressionada, Juliana acabou confessando ter tomado os medicamentos abortivos. “Foi aonde eu fui falando e dei o nome do rapaz que me vendeu. Se autuou o crime em flagrante.”

Na sexta-feira 25 de maio a atual paralisação no transporte rodoviário de Brasil era um momento que ilustrava como, no setor, os interesses de trabalhadores e da companhias podiam se alinhar.

“se o declarou que, devia chamar a ajudinha, se eu desmaiasse. Eu desmaiei por alguns segundos e ele não fez nada”, relatou.

“Eu fiquei bastante chateada com isso, quando acordei porque era minha vida em jogo. Mas ele era maior de idade e eu era menor e ia afliçãozinha para ele isso, então embora e eu fiquei sozinha, ele foi.”

Maria passou a noite toda sangrando e sentindo fortes contrações. A única pessoa da família dela que sabia do aborto era a irmã, que também estava grávida.

“Quando a minha irmã me ligava eu não podia falar: ‘Olha, está doendo demais e eu estou com muito medo’. Porque ela estava grávida de sete meses. Era minha escolha, não era a dela. Eu não podia inquietar uma pessoa que não tinha nada a ver com isso.”

Sem saber bem o que fazer, a jovem voltou para casa após a madrugada de aborto e tardou a procurar uma clínica. Hoje ela tem consciência de que poderia ter falecido e de que perdeu bastante sangue durante o procedimento.

Mas, para ela, a lembrança mais dolorosa é a da solidão que sentiu. “O pior sentimento acho que é o de desamparo. Porque eu desejava contar para a minha mãe. É a pessoa que eu mais amo no mundo e mais confio, mas não para isso. Por causa do julgamento, da religião, da crença.”

Da experiência “de desamparo”, como ela descreve, veio a resolução de integrar um grupo de WhatsApp secreto que comercializa pílulas abortivas e dá instruções sobre o procedimento de interrupção da gravidez, por vídeo, texto e áudio. Cerca de 300 abortos foram realizados pelo grupo desde que se o instituiu , há três anos.

“Eu faço por afeição, porque eu sei que vou auxiliar uma pessoa a se sentir segura. Eu me vejo em cada uma daquelas meninas de uma forma diferente. Com uma saída mais fácil.”

A BBC Brasil teve acesso às conversas do grupo por 5 meses. Quatro mulheres de diferentes Estados do país gerenciar o serviço e atuam como “guias”- acompanham as grávidas do início ao fim do procedimento, pelo smartphone. O app também funciona como uma espécie de grupo de suporte, as mulheres trocam experiências e confortam umas às outras.

Leia a reportagem completa aqui:

Maria declara que participou de 50 abortos.

“Eu instruo a quantidade de remédio referente ao tempo gestacional, explico como utilizar. Dou apoio, falo do quanto é normal ela sangrar, quantas horas vai levar, mais ou menos, como agir referente a cada situação. É meio que um pouco a pouco até a conclusão”, relata.

Nem Maria nem as outras quatro jovens que gerenciar o grupo de WhatsApp têm formação médica. As instruções se baseiam na experiência e em dicas de médicos e enfermeiros que conheceram ao longo da vida.

“Depois de tudo isso, eu recebi ameaças do rapaz que vendeu a medicação, recebi chantagens de familiares. Os médicos da minha cidade sabem o que ocorreu e não me tratam tão bem”, conta.

A médica Alessandra Giavanini adverte que o medicamento abortivo pode provocar sangramento e restos do feto podem permanecer no útero, levando infecções e até na morte, se a grávida não procurar assistência em uma clínica. A médica Alessandra Giavanini é diretora do Núcleo de Aborto Legal do Hospital Pérola Byington.As gerentes do grupo de WhatsApp recomendam que todas as mulheres que suspendem a gravidez procurem atendimento médico até uma semana depois de tomar as pílulas, para verificar se há necessidade de curetagem.

Maria declara que, na realidade, desejava que o aborto fosse legalizado, para que as mulheres tivessem acesso a um procedimento totalmente seguro.

Muitas mulheres no Brasil temem buscar atendimento nos hospitais, após interromper a gravidez, por medo de serem denunciadas à polícia. Segundo a Defensoria Pública de São Paulo, em cerca de 70% dos processos por autoaborto, a acusação foi feita pelos profissionais de saúde.

Maria justifica a manutenção da “hospital virtual de aborto” declarando que se as grávidas fizessem o aborto sozinhas, os riscos poderiam ser ainda maiores, como ela aos 17 anos, sem o suporte de quem já passou por essa experiência.

“Não tem como garantir para elas que será 100% seguro. A gente fala isso, não posso te garantir que vai ocorrer nem que você está em plena segurança. Mas a gente faz o possível para isso: analisa o fluxo da hemorragia, quanto absorvente está utilizando em tal fase, fraqueza, tontura”, detalhou em entrevista à BBC Brasil.

“Talvez, essas mulheres tentarão de outra maneira, se eu não auxiliar. Tem moça que chega a mim declarando que viu na internet um vídeo que se você enfiar uma agulha, você fura a bolsa, e pode furar outra coisa. Prefiro não deixar essas mulheres sozinhas.”

De acordo com a Pesquisa Nacional do Aborto, de pesquisadores da Universidade de Brasília, 500 mil abortos clandestinos acontecem a cada ano no Brasil – metade termina em internações.

E dados do Ministério da Saúde assinalam que quatro mulheres falecem por dia por complicações de um aborto.

O impacto da criminalização sobre o número de abortos

Um estudo publicado na revista médica Lancet, conduzido pela pesquisadora Gilda Sedgh, do Instituto Guttmacher, de Nova York, aponta uma taxa de 37 abortos a cada mil mulheres em países que vetam o aborto em qualquer circunstância ou que só o permitem em caso de risco de vida para a mãe.

Em nações onde a interrupção da gravidez é permitida e oferecida mediante pedido da gestante, o número de abortos é de 34 para cada mil mulheres.

Para esse estudo, foram requisitados dados oficiais de 184 países e analisadas informações de fontes internacionais e de pesquisas acadêmicas locais.

Já a pesquisadora Diana Greene Foster, califórniacalifórnia, que organiza um estudo sobre os conseqüência psicológicos de abortos e gestações indesejadas, declara que proibir a prática não impede que mulheres com recursos financeiros recorram a ela, mas pode obrigar as mais pobres a ter o bebê.

“Tornar o aborto ilegal encoraja as mulheres a buscarem meios ilegais de abortar. Então, a segurança do aborto cai. E pessoas com menos recursos financeiros acabam tendo os bebês”, diz.

É o caso de Estados Unidos, Canadá e dos integrantes da União Europeia. Oferece-se o aborto em o Reino Unido, em o serviço público de saúde, caso seja esse o desejo de a mulher.

Fonte: BBCBrasil-pt

Sentiment score: NEUTRAL

Countries: United States, United Kingdom, Canada, Brazil

Cities: Sao Paulo

A história desta notícia a partir de notícias prévias:
>’Desmaiei em aborto clandestino aos 17 anos e meu namorado desapareceu’
>>>>>A mulher denunciada por médica e processada por aborto: ‘Fui interrogada enquanto abortava’ – (BBCBrasil-pt)

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